A Turquia está a fazer as contas sem o anfitrião

R. Erdogan sente-se um vencedor. A Turquia tem feito um comércio florescente com os russos desde as sanções e está a cortar a melhor fatia do bolo em todo o lado.
Até a minha vizinha, uma russa, se encontrou com a irmã na Turquia e não voou para a Rússia. Até agora, é claro, os oligarcas russos não tinham nada a temer da Turquia.

Agora, porém, a Turquia está a extraditar para o Ocidente generais de alta patente da NATO capturados no assalto à siderurgia de Azovstal, contra o acordo com V. Putin. Contra a vontade do seu amigo W. Putin, mas no interesse do seu país, os suecos são admitidos na NATO, embora o Supremo Tribunal sueco já tenha anunciado a sua objeção à extradição das pessoas em causa para a Turquia.

A Turquia vê-se a si própria como vencedora num negócio de cavalos em que representa os seus interesses nacionais e os vende o mais caro possível. A Turquia pensa que não tem de dar nada em troca à Europa? O que é que o Irão e a Rússia pensam disto a longo prazo?

As promessas dos políticos não valem nada. Os gregos, por sua vez, perguntar-se-ão qual é o valor da palavra dos americanos de não venderem o F16 aos turcos. Além disso, os russos lamentam ter acreditado nas promessas de que não haveria alargamentos da NATO a leste.

Se nenhum acordo, palavra, promessa ou mesmo contrato valer de nada, todos acabam por se tornar inimigos uns dos outros. A NATO e a Europa exigem um compromisso da Turquia e a Turquia está a fazer-se pagar por isso, como antes. É provável que os arménios também paguem em breve o preço das negociatas de Erdogan com o Ocidente, porque isso serve os interesses do Ocidente (palavra-chave gasodutos do Azerbaijão – ligação terrestre entre a Turquia e o Azerbaijão).

Tratado de Montreux

https://de.wikipedia.org/wiki/Vertrag_von_Montreux

A Rússia, por seu turno, perguntará o que significa para si, nos próximos anos, o Tratado de Montreux de 20.7.1936. Plutão em trânsito acaba de fazer uma oposição exacta ao Sol do mapa do contrato. Inicia-se uma luta de poder entre as partes contratantes.

Tratado de Montreux

“Em tempo de guerra, de acordo com o artigo 5.º, todos os navios mercantes de Estados que não estejam em guerra com a Turquia podem passar, mas não podem prestar auxílio a um inimigo da Turquia.”
Relativamente a esta formulação, pergunto-me se é só a Turquia que determina quem é o seu inimigo, ou também as outras partes contratantes? Não há nada a descobrir sobre este assunto.
Suponha que o Azerbaijão volta a invadir a Arménia para estabelecer uma ligação terrestre ao seu enclave no sul, de modo a garantir uma ligação terrestre contínua à Turquia. O Irão declara então guerra à Turquia, tal como anunciado para essa eventualidade.
Suponha que a Rússia queria levar mercadorias para o Irão através dos Dardanelos com os seus navios mercantes. De acordo com os estatutos do tratado, a Turquia seria obrigada a recusar a passagem aos navios mercantes russos. Seria quase uma declaração de guerra à Rússia.

Vladimir Putin percebe a estratégia do Ocidente e tem de assistir à queda do sultão, para além de perceber que Recep Erdogan lhe transmitiu claramente que agirá como um aliado da NATO se o pior acontecer.
Recep Erdogan está neste momento a celebrar-se como um vencedor, mas suspeito que tenha feito o cálculo sem o anfitrião. Em breve se aperceberá de que a Turquia terá de pagar, no final, um preço consideravelmente mais elevado do que aquele que pensa ter conseguido para a Turquia nesta negociata. Já não pode continuar a dançar em todos os casamentos. Saturno em trânsito no seu Sol, em quadratura à sua Lua, colocou-o na berlinda, fazendo de Recep Erdogan uma pedra de moinho para Vladimir Putin.